sábado, 15 de agosto de 2026.
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Por que Manaus vira um forno no Verão? O segredo das ilhas de calor

MANAUS (AM) — O verão amazônico chega ao Amazonas entre julho e novembro, e com ele um cenário preocupante: o avanço das ilhas de calor em Manaus. Enquanto áreas arborizadas mantêm temperaturas amenas, bairros fortemente urbanizados da capital sofrem com calor sufocante. Mas o que explica essa diferença tão marcante no cotidiano da cidade?

O Que São as Ilhas de Calor em Manaus?

As ilhas de calor em Manaus acontecem quando superfícies construídas pelo homem — como asfalto, concreto, telhados escuros e tijolos — absorvem a radiação solar durante o dia e a liberam lentamente para o ambiente. A falta de vegetação e a impermeabilização do solo fazem com que quarteirões inteiros acumulem calor, elevando a temperatura do ar de forma significativa.

Segundo a pesquisadora Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE, o problema está diretamente ligado ao modelo de urbanização da cidade. “Para a nossa sobrevivência, a gente precisa de cidades menos quentes”, alerta a especialista.

Por Que Manaus é Tão Vulnerável ao Calor Urbano?

A localização geográfica de Manaus sob clima equatorial já impõe, por natureza, alta umidade e grande incidência de radiação solar durante todo o ano. No entanto, são as transformações no espaço urbano que potencializam as ilhas de calor em Manaus.

Três fatores principais explicam essa vulnerabilidade:

1. Impermeabilização do solo

A pavimentação densa sobre antigas áreas verdes impede a infiltração da água da chuva. Sem água retida no solo para evaporar, a cidade perde seu mecanismo natural de resfriamento.

2. Retenção térmica no asfalto e no concreto

Materiais escuros possuem baixo índice de refletividade (albedo). Na prática, funcionam como “esponjas térmicas” que absorvem energia solar de dia e a liberam durante a noite, impedindo que os bairros consigam resfriar.

3. Barreiras para a circulação do ar

O avanço desordenado de construções e edifícios cria bloqueios físicos que impedem a circulação das brisas úmidas vindas dos rios Negro e Amazonas.

O Papel da Umidade na Sensação Térmica

O impacto das ilhas de calor em Manaus ganha contornos ainda mais críticos devido às condições atmosféricas da região. Durante o verão amazônico, a redução de nuvens permite longas horas de incidência solar direta sobre o asfalto.

A meteorologista Andrea Ramos explica que a combinação de calor extremo com alta umidade relativa é o fator determinante para o risco à saúde na capital. Quando a umidade está elevada, o suor evapora com menor eficiência, reduzindo a principal forma de resfriamento natural do corpo. Assim, uma temperatura de 36°C ou 37°C pode produzir uma sensação térmica muito maior do que o indicado pelo termômetro.

Soluções para Combater as Ilhas de Calor em Manaus

Dados do Inmet apontam que a arborização planejada tem capacidade de reduzir a temperatura ambiente em cerca de 4°C nos pontos mais críticos da cidade. As especialistas destacam três medidas fundamentais de mitigação:

Arborização massiva

O plantio de árvores em calçadas, quintais e canteiros centrais gera sombreamento e resfriamento por evapotranspiração. “É urgente que o poder público comece a reverter isso porque nós vamos ter cada vez mais ondas de calor, e elas serão mais intensas”, reforça Luciana Gatti.

Uso de superfícies claras

A adoção de tintas e materiais refletivos em telhados e fachadas evita que a radiação solar fique retida nas moradias. “Pintar as casas de branco, inclusive no telhado, ajuda a refrescar porque a energia solar reflete”, explica a pesquisadora do INPE.

Proteção de igarapés e florestas urbanas

A preservação de fragmentos vegetais funciona como “janelas de respiro”, ajudando a circular a brisa vinda dos rios para o interior dos bairros.

Conclusão

As ilhas de calor em Manaus não são apenas um desconforto sazonal — representam um risco crescente à saúde pública e à qualidade de vida na capital amazônica. A reversão desse cenário exige ação imediata do poder público e da sociedade, combinando arborização, materiais refletivos e preservação de áreas verdes. Afinal, no coração da maior floresta tropical do mundo, a cidade precisa reaprender a conviver com o verde para enfrentar o calor.