
O Pix virou alvo da Casa Branca, mas o Banco Central não recua. Enquanto o governo Donald Trump classifica o sistema brasileiro como “prática desleal” no mercado financeiro — no contexto do tarifaço de 25% —, a autoridade monetária avança com um plano que pode reduzir a dependência do Brasil de estruturas de pagamento controladas por empresas americanas e baratear remessas internacionais.
A agenda, divulgada nesta segunda-feira (10) no Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, prevê a interligação do sistema a plataformas de outros países e a hubs multilaterais globais. A promessa é clara: transferências internacionais com dinheiro disponível em moeda local em poucos segundos, sem as tarifas tradicionais de correspondentes bancários.
“Estão em discussão tanto interligações bilaterais como a participação em hubs multilaterais”, informou o BC. A medida colocaria o Brasil na contramão do modelo que hoje domina o comércio exterior — e que irrita Washington justamente por tirar o país da órbita de instituições financeiras norte-americanas.
O que muda no dia a dia
Para o cidadão comum, a mudança significa poder pagar compras no exterior ou enviar dinheiro a familiares em outros países com a mesma velocidade de uma transferência Pix doméstica. Mas a revolução não para nas fronteiras.
O BC estuda ainda o pagamento por aproximação sem internet, o Pix Automático como substituto do débito em conta e a utilização de “fluxos futuros de Pix” como garantia em operações de crédito — o que, na prática, poderia baratear o custo do crédito para empresas com alto volume de transações pelo sistema.
Segurança em tempo real
A expansão do Pix exige um paredão contra fraudes. O BC anunciou oito medidas, entre elas um indicador de probabilidade de fraude calculado por Inteligência Artificial em tempo real para todas as operações. O modelo de machine learning será disponibilizado às instituições financeiras para alimentar seus próprios sistemas antifraude.
Hoje, cada banco define seus próprios critérios de suspeita, o que gera “comportamentos heterogêneos” e permite que transações de alto valor em horários atípicos sejam autorizadas sem avaliação adequada. A nova regra estabelecerá padrões mínimos obrigatórios e criará um fluxo automatizado de troca de informações entre instituições para bloqueios cautelares.
O problema das mensagens
O sucesso do Pix trouxe também um efeito colateral: o campo de mensagens das transações virou canal para ofensas, ameaças e intimidações, muitas vezes acompanhadas de transferências de valores irrisórios. O BC criou um grupo de trabalho para discutir mudanças regulamentares que coíbam o uso inadequado da ferramenta.
Enquanto isso, a disputa com os Estados Unidos ganha contornos geopolíticos. Especialistas avaliam que a reação de Trump não é apenas comercial: o Pix fortalece uma infraestrutura financeira própria do Brasil e reduz a capacidade de Washington de usar mecanismos de pagamento como instrumento de pressão — algo que o BC parece disposto a aprofundar, não a recuar.










