quarta-feira, 9 de setembro de 2026.
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No coração da floresta, Manaus ferve: MIT e UFAM mapeiam o calor que sufoca a cidade

Resultados servirão para criar um modelo matemático de redução de calor urbano.

MANAUS (AM) — Capital cercada pela maior floresta tropical do planeta transformou-se em laboratório global para um problema que assola as metrópoles tropicais. Agora, pesquisadores do MIT e da UFAM querem entender por que a cidade esquenta — e como redesenhá-la para o futuro.**

Manaus vive um paradoxo geográfico que desafia o senso comum. Cercada pela maior floresta tropical do mundo — um imenso ar-condicionado natural que regula o clima de todo o planeta —, a capital amazonense transforma-se, a cada ano, em uma das cidades mais sufocantes do Brasil. A sensação térmica frequentemente ultrapassa os 40°C nos meses de estiagem, e o asfalto do Centro, os bolsões de concreto da Zona Leste e os condomínios verticais da Zona Centro-Sul irradiam calor muito além do que os termômetros oficiais registram.

É esse contraste — entre a floresta que respira e a cidade que transpira — que está no centro de uma investigação científica sem precedentes. A Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e o Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), transformou Manaus em um laboratório vivo para decifrar um fenômeno que, até recentemente, era tratado como mera sensação: as **ilhas de calor em Manaus**.

O mapa invisível do calor

A pesquisa não se limita a medir temperaturas. Os pesquisadores instalaram sensores em pontos estratégicos — da sede do Implurb a um edifício no Parque Mosaico, no Tarumã — para capturar como o calor se comporta em microescala. O objetivo é construir um modelo físico-matemático que revele o invisível: por que uma rua no Bairro da Paz pode ser até 6°C mais quente que outra a poucos quilômetros de distância; por que certos bairros retêm calor durante a noite inteira; como a ausência de árvores, a cor das fachadas e a densidade dos edifícios conspiram para criar verdadeiras armadilhas térmicas.

“Manaus é a maior cidade amazônica e sua importância transcende o Brasil. O que decidirmos aqui sobre planejamento urbano servirá de modelo para todas as metrópoles da América Latina tropical”, resume a pesquisadora Sylvia Jiménez Riofrío, doutoranda do MIT. A frase carrega um peso que vai além da academia: trata-se de uma corrida contra o tempo em um planeta que aquece.

Da tese à lei urbanística

O que diferencia este estudo de tantos outros realizados em universidades é o destino final dos dados. Eles não ficarão engavetados em teses acadêmicas. Marcos Cereto, coordenador do Grupo de Pesquisa Arquitetura Moderna na Amazônia (Grupo AMA) da UFAM, é enfático: o conhecimento produzido servirá para reescrever a legislação urbanística da cidade.

“Estamos falando de conforto térmico, desempenho das edificações e consumo de energia. Cada decisão de zoneamento, cada regra sobre recuos, alturas e áreas verdes precisa ser revista à luz desses dados”, afirma. O consumo de energia, aliás, é um termômetro econômico: em Manaus, os picos de calor se traduzem diretamente em picos de consumo de ar-condicionado, sobrecarregando a rede elétrica e pesando no bolso do cidadão.

Uma cidade redesenhada para o clima que vem

Pedro Paulo Cordeiro, vice-presidente do Implurb, aponta para uma verdade incômoda: “Vivemos um período de mudanças climáticas cada vez mais intensas. O calor não é mais uma exceção, é a regra.” Para ele, o estudo oferece algo raro na gestão pública — dados concretos para embasar decisões. Não se trata mais de intuição ou de pressão política, mas de ciência aplicada ao território.

A pergunta que fica não é mais se Manaus vai mudar, mas como. Se o modelo físico-matemático provar, por exemplo, que a arborização de uma avenida reduz em 3°C a sensação térmica do bairro, a discussão sobre orçamento deixa de ser ideológica e passa a ser técnica. Se o estudo demonstrar que certos materiais de construção amplificam o calor, a indústria da construção civil terá de se adaptar.

No coração da floresta, uma cidade tenta, enfim, aprender a conviver com o próprio clima. E o mundo tropical observa.