
MINAS — O barro ainda está molhado nas encostas da Zona da Mata. O cheiro de terra e perda ainda paira no ar de Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa. Mas, em meio ao cenário de destruição deixado pelas chuvas desta semana, algo brota com força: a solidariedade. Não aquela fria, de estatísticas, mas a solidariedade que chega em caixas de papelão, em sacos de arroz e em lágrimas compartilhadas nos pontos de coleta.
Enquanto os bombeiros trabalham sem descanso para encontrar desaparecidos sob os escombros, uma outra máquina, movida a coração, começou a operar em marcha acelerada. Voluntários anônimos e instituições centenárias se transformaram na retaguarda da esperança para centenas de desabrigados que viram a água levar não apenas móveis, mas fotografias, lembranças e a sensação de segurança.
Em cada canto da cidade mais castigada, Juiz de Fora, a ajuda ganhou endereço. As escolas municipais Murilo Mendes e Professor Nilo Camilo, que durante o dia ecoam com voos de crianças, agora à noite se iluminam como faróis de acolhimento, recebendo cobertores para aquecer quem perdeu tudo. A Casa da Mulher, símbolo de acolhimento, virou um centro de distribuição de dignidade, arrecadando absorventes, cremes dentais e água potável. Até os shoppings, templos do consumo, cederam espaço para o consumo mais nobre: o de comprar um agasalho para doar.
E a solidariedade não escolheu meio de transporte. Chega de carro, de bicicleta e até pelo ar, em ondas invisíveis. Uma chave Pix oficial da prefeitura, [email protected], virou uma espécie de corrente do bem, permitindo que de qualquer lugar do país se possa estender a mão. É o dinheiro que vira cesta básica, que vira colchão novo para substituir o que virou lama.
O governo de Minas, por meio do Servas, deu um passo além. As doações em dinheiro para a chave [email protected] não viram apenas itens soltos; transformam-se em um cartão humanitário. Uma solução moderna que permite à mãe de família, ao idoso ou ao trabalhador que perdeu tudo, ter a autonomia de escolher o que realmente falta naquele momento: seja um frango para o jantar ou um remédio esquecido na correria da fuga.
Em meio à comoção, a fé também se fez presente. A Arquidiocese de Juiz de Fora, através de paróquias simples e da imponente Catedral Cristo Rei, em Belo Horizonte, abriu suas portas não só para orações, mas para caixas de papelão. E a Cruz Vermelha, com sua história de socorro, desembarcou na Rua Gastão Bráulio dos Santos, no bairro Gameleira, pronta para somar forças com sua chave Pix: [email protected].
Há um alerta, porém, que ecoa entre as prefeituras e o governo: que a corrente do bem não seja rompida por oportunistas. A orientação é simples e firme – antes de digitar uma chave Pix ou entregar uma doação, confira o destinatário. A generosidade dos mineiros e de todo o Brasil merece chegar intacta a quem realmente precisa.
A chuva pode ter levado a paz da Zona da Mata, mas não levou a força do seu povo. E enquanto a lama seca, o que se vê é uma multidão de mãos estendidas, escrevendo, juntos, o primeiro capítulo da reconstrução.


