No interior do AM, noiva indígena dá à luz e casamento é feito em casa

ane e Admilson, da etnia Tikuna, se casaram em casa. ─ Foto: Divulgação

Dois casamentos civis foram celebrados na casa dos noivos, na Comunidade Porto Alegre, no município de Benjamin Constant (a 1.121 quilômetros a oeste da capital) por causa da impossibilidade das mulheres se deslocarem para uma das cerimônias do casamento coletivo que acontecem na cidade.

Jane Lázaro Inácio Ticuna, 21, deu à luz seu terceiro filho quando faltavam sete horas para o início da celebração em que estava previsto o casamento dela com Admilson Bibiano Pedro, 22, na Comunidade Feijoal, localizada a 15 minutos de lancha do local onde vivem e a cerca de uma hora da sede do município. “Eu mandei recado e o cacique avisou”, contou Admilson, que ficou preocupado com a chance de não oficializar o matrimônio.

 Uma equipe da Defensoria Pública do Estado (DPE-AM), que organiza o casamento coletivo em parceria com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e outros órgãos, foi para a casa dos noivos junto com a juíza Luiziana Teles Feitosa Anacleto. Com a ajuda de um intérprete da etnia Tikuna, o casamento aconteceu no quarto dos noivos, onde o filho mais novo do casal, ainda sem nome, havia nascido horas antes.

Durante a cerimônia, Jane, que se recuperava do parto, permaneceu sentada no chão. Admilson vestiu um terno e permaneceu ao lado da noiva rodeada pelos outros dois filhos. “Como magistrada, sinto-me honrada em poder participar desse evento tão sublime e grandioso, um verdadeiro ato de cidadania. Sair do ambiente forense, atravessar os rios do Amazonas é uma experiência ímpar e reafirma o respeito que o poder judiciário nutre pelos povos indígenas, o reconhecimento de suas crenças e contribui para o consolidação do estado democrático e plurietnico”, afirmou a juíza.

Diabética

Luiza Gaspar Ferreira, 66, é diabética e teve que amputar o pé direito há uma semana, após uma ferida não se cicatrizar. Ela e Armando Santo Guedes, 63, se casaram na própria residência, na comunidade Porto Alegre, também diante da dificuldade da noiva se deslocar para o casamento coletivo na comunidade Feijoal.

Com a ajuda do intérprete Tikuna, Armando contou que o casal pretendia realizar o casamento civil para garantir direitos previdenciários na eventual morte de um dos noivos, considerando a idade dos dois.

Casamento coletivo

Indígenas Tikuna e Kokama estão formalizando o matrimônio em um casamento coletivo, nesta semana, com mais de 800 casais em Benjamin Constant. As celebrações acontecem desde terça-feira (11) e terminam nesta quinta-feira (13). O casamento é organizado pela DPE-AM em parceria com a Funai, a Corregedoria Geral do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), a Prefeitura de Benjamin Constant e o Governo do Estado do Amazonas.

Os casais vivem em 35 comunidades e foram divididos para quatro cerimônias, que acontecem nas comunidades Feijoal, Filadélfia, Guanabara 3 e São Leopoldo. As celebrações respeitam as tradições culturais dos indígenas, que, com a iniciativa, conseguem oficializar o casamento civil de maneira gratuita.

O casamento coletivo também conta com o apoio do Exército Brasileiro, da Marinha do Brasil, do Batalhão de Polícia Militar de Tabatinga e do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Solimões (DSEI-ARS). As instituições estão dando suporte logístico e de estrutura para a realização das cerimônias, que ocorrem em locais de difícil acesso.

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