terça-feira, 7 de abril de 2026.
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Mães protestam em Manaus por justiça após mortes de filhos em hospitais

Manaus (AM) — Enquanto laudos médicos acumulam poeira em gavetas e inquéritos se arrastam por meses, seis mães foram para a rua. O protesto desta segunda-feira (6) em frente à Secretaria de Estado da Saúde (SES-AM), na Zona Centro-Sul de Manaus, não foi um ato político comum. Foi um clamor por algo básico: responsabilização.

Elas perderam filhos em hospitais — públicos e privados. As crianças tinham nomes, idades, histórias. Benício, 3 anos. Antônio, dois meses. Alice, ainda pequena demais. Isadora, morta em 2023 no mesmo hospital onde Alice também não resistiu.

O que une essas mães é a sensação de que o sistema falhou repetidamente. E que os profissionais apontados por negligência seguem impunes.

A espera que se arrasta por meses

Joyce Xavier perdeu Benício em novembro de 2025, durante um procedimento no Hospital Santa Júlia, na capital amazonense. O inquérito, até agora, não foi concluído. O motivo: falta o laudo do Instituto Médico Legal (IML).

“Já são quatro meses de espera. Imploramos para que o laudo seja finalizado e o caso siga para a Justiça. Perdemos nossos filhos por indiferença e descaso. Nós pedimos que os médicos culpados sejam responsabilizados”, disse Joyce, em entrevista durante o protesto.

O caso de Antônio, de apenas dois meses, choca pelo agravante: a mãe, Markele, levou o bebê três vezes ao Hospital Infantil Joãozinho, na Zona Leste de Manaus, em dezembro de 2024. Na terceira tentativa, ele morreu na emergência. “Eu gritava pedindo ajuda, mas não quiseram salvar a vida do meu filho”, afirmou.

A médica que ‘estava cansada’

Lisandra Vitória trouxe um relato que expõe uma face ainda mais cruel da negligência. Sua filha, Alice, morreu em novembro de 2025 no Hospital da Criança da Compensa, na Zona Oeste de Manaus.

“Minha filha estava em estado grave e a médica disse que não viria porque estava cansada. Eu pedi de todas as formas, mas não fui atendida”, contou Lisandra.

O mais estarrecedor é que não foi a primeira vez. Lisandra lembrou o caso de Isadora, que morreu em 2023 na mesma unidade hospitalar, com o mesmo perfil de falha. “Se tivesse havido justiça, minha filha não teria falecido. A equipe médica se repete”, disse.

O que acontece agora?

As mães foram recebidas pelo secretário executivo da SES-AM em reunião fechada — sem acesso da imprensa. Não houve anúncio público de medidas concretas. O grupo promete levar os casos ao Tribunal de Justiça do Amazonas.

Um marco importante acontece nesta terça-feira (7), às 13h: uma audiência pública na Câmara Municipal de Manaus, no bairro Santo Agostinho. O encontro discutirá as denúncias de negligência e cobrará providências das autoridades.

A pergunta que fica: quantos Benícios, Antônios, Alices e Isadoras serão necessários até que a responsabilização deixe de ser exceção e vire regra?