Funcionário endividado produz 15% menos no trabalho, diz pesquisa

Foto: Rafael Moraes/Agência O Globo

A preocupação gerada pelas dívidas em atraso provoca impacto negativo nos relacionamentos familiares e amorosos, tira o sono e aumenta ou reduz o apetite, entre outras consequências. Agora, uma pesquisa comprovou também os efeitos no trabalho. Funcionários endividados ou que têm preocupações com dinheiro produzem, em média, 15% menos do que seus colegas.

É o que revelou o estudo “The Employer’s Guide to Financial Wellbeing 2018-19”, feita no Reino Unido, com mais de dez mil trabalhadores. Para especialistas, os colaboradores podem desenvolver doenças como depressão e síndrome do pânico.

Dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) mostram que 62,6 milhões de pessoas — o que representa quase 41% da população adulta — estão com as contas atrasadas.

Segundo o levantamento, os endividados são 8,8 vezes mais propensos a ter insônia e têm 7,6 vezes mais chances de não terminarem suas tarefas diárias, além de terem uma probabilidade 5,7 vezes maior de terem problemas com colegas no ambiente de trabalho.

A preocupação com as contas em aberto é maior entre os que têm até 44 anos. Os funcionários endividados têm cinco vezes mais chances de serem deprimidos e quatro vezes mais possibilidades de sofrerem ataques de pânico.

De acordo com pesquisa feita no ano passado pela Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), 84% dos trabalhadores brasileiros sofrem com algum tipo de problema financeiro, incluindo os que não se consideram capacitados de lidar com o dinheiro, os que não conseguem poupar e usam algum tipo de crédito, como o parcelamento com cartões, e os que não honram compromissos financeiros:

— A pessoa começa a receber ligações de cobrança, em casa e na empresa, e fica tensa. Com o alto nível de estresse, aparecem as doenças, como hipertensão e cardiopatias. Quem, nessas condições, tem concentração no trabalho? — pergunta o presidente da Abefin, Reinaldo Domingos.

Os problemas relacionados à saúde mental já representam um terço do número de afastamentos de funcionários do trabalho. Além disso, questões relacionadas à depressão, ansiedade e síndrome do pânico, entre outras, aumentam em até três vezes o período de licença médica, na comparação com afastamento causado por outras doenças. Os dados constam de uma pesquisa da Consultoria Mercer Marsh Benefícios, feita com 611 empresas.

— Muitas companhias já observam a importância do cuidado com a saúde dos colaboradores. Para isso, começam a implantar programas internos de educação financeira e cuidados pessoais — observa Mariana Dias Lucon, diretora de Produtos da Mercer Marsh Benefícios.

O diretor de Educação Profissional e Financeira da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Fabio Moraes, defende investimentos em programas de orientação para ajudar os empregados a saírem do vermelho:

— Há grandes gastos com afastamentos médicos e faltas de funcionários decorrentes do endividamento. Isso porque dívidas em excesso geram doenças. O superendividamento acaba atingido todos os aspectos da vida.

Demissão por dívidas

Em tese, qualquer empresa pode demitir o colaborador que não atende às expectativas. Mas o endividamento não pode ser a razão alegada para o encerramento do contrato. Segundo o advogado trabalhista Daniel Alves, do escritório Denise Rocha Advocacia, o funcionário demitido por pendências financeiras tem o direito de receber indenização por danos morais. No entanto, até pouco tempo, a regra para os bancários era diferente:

— Até 2010, existia na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) um artigo que permitia dar justa causa ao empregado bancário que tivesse pendente de pagamento de dívidas legalmente exigidas, ou seja, o devedor. Mas a Lei 12.347 extinguiu isso.

Daniel Alves acrescenta que as empresas também não podem utilizar a consulta financeira para eliminar um candidato a uma vaga de emprego. Mas um projeto de lei (781/2015) que impedia as empresas de consultar serviços de proteção ao crédito antes de decidirem sobre uma contratação acabou sendo arquivado no ano passado. Segundo o texto, o nome sujo não poderia ser justificativa para impedir a contratação de um candidato. A proposta proibia ainda a exigência de certidão que comprovasse a condição de adimplente do trabalhador.

“Verificavam se candidato tinha o nome limpo”, diz Débora Nascimento, diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio de Janeiro (ABRH-RJ)

“Há 15 anos, quando as empresas tinham departamento pessoal — preocupado com números e burocracias —, costumava-se verificar o aspecto financeiros, ou seja, se o candidato a uma vaga tinha o nome limpo. Com o setor de Recursos Humanos, puseram as pessoas no centro das discussões, e não os números. O que se fazia, hoje, é uma prática ilegal. Num cenário de crise, a contratação é chance de o sujeito acertar as contas.”

Por EXTRA

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