Em entrevista a TV italiana, Bolsonaro distorce dados sobre meio ambiente no Brasil

Bolsonaro participou da cúpula do G-20 em Roma (Foto: Filippo Monteforte/ AFP)

Em entrevista ao canal de TV italiano TG 24 News, neste domingo, o presidente Jair Bolsonaro deu várias declarações imprecisas e fora de contexto sobre a política ambiental do Brasil.

O depoimento foi concedido após o brasileiro deixar o encontro de líderes dos países do G-20, que teve grande peso na discussão do combate à pandemia mas também tratou de temas ambientais.

Sobre a crise do clima, Bolsonaro deu a seguinte declaração:

“A emergência climática foi um outro tema do G-20. O Brasil é um país que emite apenas 7% de CO2. Obviamente nós temos o setor zootécnico que gera emissões de gases poluentes. Infelizmente no Brasil há uma guerra de poder. Diversamente de quem me precedeu, tem muitas críticas sobre mim a respeito da Amazônia. Mas a Amazônia não está queimando porque é uma floresta úmida, pega fogo só nas áreas periféricas. Tem também os desmatamentos ilegais que nós combatemos. Tanto é que este ano estamos indo tão bem que a imprensa não diz mais nada sobre isso.”

O pronunciamento foi feito no dia em que têm início a COP-26, a conferência do clima de Glasgow, que discute a implementação do Acordo de Paris para redução global da emissão de gases do efeito estufa.

O Globo apurou em informações oficiais do Brasil e de órgãos da ONU dados que pudessem validar as declarações de Bolsonaro e decompôs a declaração do presidente frase por frase.

Leia abaixo:

“O Brasil é um país que emite apenas 7% de CO2.”

Não ficou claro o que Bolsonaro quis dizer com essa frase. O Brasil emitia 7% dos gases de efeito estufa no mundo nos piores anos, na década de 1990, quando o desmatamento era mais alto e o planeta como um todo queimava menos combustíveis fósseis. Essa porcentagem caiu depois, e nos últimos anos vinha oscilando. Em 2019 foi de 3,5%, mas em 2020 aumentou para cerca de 4%, porque o durante o governo Bolsonaro o desmatamento voltou a aumentar, mesmo num ano onde a pandemia fez a economia mundial retrair.

“Obviamente nós temos o setor zootécnico que gera emissões de gases poluentes.”

O presidente provavelmente se referia aqui às emissões de gases-estufa pela pecuária, que de fato tem um peso grande no perfil emissor do país. O gás metano da fermentação entérica dos animais é um potente gás-estufa, mas o peso mais grave da agropecuária é no desmatamento para abertura de pastagens, sobretudo na Amazônia.

“Mas a Amazônia não está queimando porque é uma floresta úmida, pega fogo só nas áreas periféricas.”

Em condições naturais, a Amazônia de fato queima menos do que florestas secas de clima temperado, como as da Califórnia ou da Austrália, onde ocorrem incêndios frequentes. A interferência humana porém, faz com que o fogo seja hoje um problema grave na mata amazônica. No mês de agosto deste ano, durante estação seca, foram registrados 28.060 focos de calor na Amazônia, apontam dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe) pelo satélite Terra, da Nasa.

Segundo pesquisadores da própria Nasa, mais da metade dos focos tem relação com desmatamento, casos onde o fogo é usado para eliminar toras derrubadas e limpar o terreno. Apesar de depender de interferência humana para ignição na Amazônia, o número de focos de fogo é influenciado também pela intensidade da temporada de seca, pois queimadas intencionais perdem o controle mais facilmente.

É verdade que os focos de incêndio são mais restritos a “áreas periféricas”, nas bordas da floresta. O desmatamento, porém, fragmenta a mata e aumenta muito a linha de borda da floresta, que é mais vulnerável ao fogo. O governo Bolsonaro registrou aumento no número de focos detectados na Amazônia em seus dois primeiros anos, segundo o Inpe, colocando o problema em patamar equiparável ao de 2015, ano de seca severa, mesmo em anos onde a umidade ficou dentro do normal. Em 2020, pelo satélite Terra, foram mais de 100 mil focos.

“Tem também os desmatamentos ilegais que nós combatemos.”

O desmatamento está aumentando e não existe nenhum indício de que uma grande parcela das áreas desmatadas nos últimos anos seja de derrubada legal de floresta. O último ano em que o MMA (Ministério do Meio Ambiente) divulgou a parcela de áreas legais comparadas às ilegais foi 2018. Mais de 90% do desmate da Amazônia naquele ano foi criminoso. Foram 6.921 km² de desmate ilegal contra 615 km² de desmate legal. O desmatamento no governo Bolsonaro está no patamar dos 10 mil km² anuais agora, mas o MMA não tem divulgado uma estimativa de cota da ilegalidade na prática. O Inpe e a Nasa apontam vários focos de desmate neste ano em terras públicas que não estão no Cadastro Ambiental Rural, um indício forte de que são áreas griladas.

“Tanto é que este ano estamos indo tão bem que a imprensa não diz mais nada sobre isso.”

A imprensa brasileira e internacional têm noticiado amplamente o aumento das taxas de desmatamento no país. Em um ano, o Globo sozinho publicou mais de 1.300 textos, entre reportagens colunas e análises, que incluem os termos de busca “desmatamento” e “Amazônia” e podem ser localizados em ferramentas de busca na internet. As informações são do O Globo.

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