
MANAUS (AM) — A defesa da médica Juliana Brasil, investigada na morte do menino Benício Xavier, de 6 anos, solicitou à Justiça o afastamento do delegado Marcelo Martins, responsável pela condução do inquérito. O pedido foi formalizado na terça-feira, 24, e tem como fundamento a alegação de que o titular das investigações teria divulgado informações protegidas por sigilo e apresentado versões que distorcem os fatos, com potencial de influenciar a opinião pública e o próprio desfecho do caso.
A representação foi protocolada um dia após o delegado conceder entrevista na qual, segundo a defesa, expôs dados sensíveis no mesmo momento em que a irmã da médica prestava depoimento. Para os advogados, a coincidência temporal evidencia o caráter irregular da divulgação.
O centro da controvérsia está em um vídeo que, na versão policial, teria sido adulterado pela médica para justificar uma suposta falha no sistema do Hospital Santa Júlia, onde a criança foi atendida. A defesa contesta a acusação. Em depoimento, uma enfermeira mencionada no caso negou ter recebido qualquer pagamento ou participado da gravação. Os advogados afirmam ainda ter identificado outras profissionais como autoras do vídeo original, que teria sido registrado no Hospital Samel, instituição que utiliza o mesmo sistema do Santa Júlia.
Outro ponto levantado pela defesa é a ausência de perícia técnica. Segundo os advogados, o delegado classificou o material como falso sem que houvesse análise oficial do conteúdo. A defesa sustenta que a conclusão antecipada compromete a imparcialidade das apurações.
Diante do quadro, o advogado pede o afastamento imediato do delegado, a abertura de investigação pela Corregedoria da Polícia Civil para apurar eventual vazamento de dados sigilosos, a realização de perícia técnica rigorosa no vídeo e a entrega do código “hash” e da cadeia de custódia das provas digitais pela polícia.
Procurada, a Polícia Civil ainda não se manifestou sobre o pedido de afastamento nem sobre as acusações formuladas pela defesa.
O caso, que ganhou repercussão em Manaus pela comoção em torno da morte da criança, tem evidenciado tensões entre a condução do inquérito e as garantias processuais dos investigados. A decisão sobre o afastamento do delegado caberá à Corregedoria e ao Judiciário, que deverão avaliar se os indícios apresentados justificam a medida.


