quarta-feira, 17 de junho de 2026.
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Cachorro com milhares de seguidores é roubado e vira refeição na China

CHINA — O border collie Chutou, que conquistou mais de 1,5 milhão de seguidores no Douyin – versão chinesa do TikTok –, teve um destino cruel ao ser furtado e abatido para servir como alimento em estabelecimento comercial na província de Henan, na China. O caso, ocorrido em maio deste ano, enquanto seu tutor Guo viajava ao exterior, expõe as fragilidades do sistema jurídico asiático na proteção de animais domésticos.

Durante nove anos, o cão acompanhou seu dono por paisagens desérticas e montanhas cobertas de neve, tornando-se uma verdadeira celebridade digital. As imagens de seus passeios e aventuras atraíam milhões de visualizações, consolidando-o como um dos pets mais populares das redes sociais chinesas.

Sequência criminosa registrada por câmeras

O crime aconteceu quando o animal estava sob responsabilidade dos pais de Guo. Em uma manhã comum, enquanto o idoso trabalhava no campo, Chutou permaneceu próximo ao veículo da família, vigiando o local. Câmeras de segurança captaram o momento exato em que um casal, em scooter elétrica, abordou o cachorro e o levou à força, mesmo com ele usando coleira identificadora e dispositivo de rastreamento GPS.

Câmeras de segurança registraram casal roubando o border collie Chutou.

Ao tomar conhecimento do desaparecimento, Guo interrompeu imediatamente sua viagem internacional e retornou à China. Durante dias, percorreu vilarejos vizinhos, analisou gravações de videomonitoramento e realizou buscas porta a porta até identificar os envolvidos no sequestro. Contudo, ao localizar o comerciante que adquiriu o animal, recebeu a devastadora informação de que nada restava de Chutou – toda a carne já havia sido comercializada ou descartada.

Venda por valor irrisório alimenta mercado ilegal

Investigações policiais revelaram que, três dias após o furto, o border collie foi negociado por apenas 180 yuans (equivalente a aproximadamente R$ 130) com um restaurante especializado em carne canina. Os autores do crime tentaram justificar suas ações alegando ter confundido o animal com um cão abandonado, tese refutada pelas evidências visuais que mostravam claramente a presença de acessórios de identificação.

Lacuna legislativa perpetua vulnerabilidade

O episódio evidencia uma contradição crescente na sociedade chinesa contemporânea. Enquanto o mercado de animais de estimação experimenta expansão acelerada, com milhões de famílias tratando cães e gatos como membros efetivos do núcleo familiar, a estrutura legal não evoluiu na mesma proporção.

Atualmente, a China carece de legislação federal específica para salvaguardar pets. Na esfera jurídica, esses animais continuam classificados como “propriedade”, o que significa que casos de roubo ou morte resultam predominantemente em disputas cíveis por compensação financeira, sem considerar o vínculo afetivo entre tutor e animal.

Embora o Ministério da Agricultura tenha retirado oficialmente os cães da lista de espécies destinadas à criação para consumo em 2020, e cidades como Shenzhen e Xangai tenham implementado proibições explícitas ao comércio de carne canina e felina, a prática persiste em regiões rurais. Nestas localidades, animais de estimação furtados frequentemente abastecem esse mercado clandestino, explorando as brechas do sistema regulatório.

O caso de Chutou tornou-se símbolo dessa dissonância entre avanços sociais e estagnação normativa, reacendendo debates sobre a necessidade urgente de reformas legislativas que reconheçam animais domésticos como seres sensíveis, e não meros bens materiais.