sexta-feira, 30 de janeiro de 2026.
Início Artigo Alfredo Nahas diz que Fox quis comprar os direitos das obras de...

Alfredo Nahas diz que Fox quis comprar os direitos das obras de Chico Xavier

Nas décadas de 60 e 70 do Século 20, o economista e espírita Alfredo Jorge Nahas vivia um Brasil em ebulição. O país era o centro das atenções, não só pela sua pujante economia, que crescia a 10% ao ano, mas também pelo seu destaque no esporte e na música.

O futebol brasileiro brilhava com títulos mundiais e ícones como Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet dominavam a Fórmula 1. Na música, a Bossa Nova, com a mais que badalada “Garota de Ipanema”, ecoava nas rádios do mundo inteiro. Nesse contexto, o Espiritismo, representado pelo carismático médium Chico Xavier, ganhava cada vez mais notoriedade.

Foi nesse período que a Twentieth Century Fox, atraída pelo sucesso dos romances de Emmanuel, se aproximou de Chico Xavier com uma proposta ambiciosa: transformar suas obras em filmes épicos de alcance mundial. A possibilidade de expandir a doutrina espírita para além das fronteiras brasileiras parecia finalmente ao alcance.

Chico estava exultante, empolgado. Porém, a alegria do médium se transformou em tristeza quando a FEB (Federação Espírita Brasileira) negou a autorização. Alegaram que os americanos deturpariam o Espiritismo, corromperiam os textos, transformando-os em algo “americanizado”.

Emmanuel pela divulgação

Chico contou essa história a Nahas quase em lágrimas. Ele não conseguia entender como a FEB poderia tomar tal decisão. “A obra não é deles, a obra não é minha, a obra é dos espíritos”, lamentou ele. Do plano extrafísico, o próprio Emmanuel, espírito guia de Chico, insistia na importância da divulgação.

Para Chico, era melhor uma obra deturpada, que poderia ser corrigida, do que a ausência de qualquer divulgação. Na visão dele, a recusa da FEB foi um crime contra a expansão da doutrina.

Nahas revelou a história durante live no Canal Flávio Valle, no Youtube, onde abordou o polêmico Concílio de Niceia, ocorrido no ano de 325 depois de Cristo.

Na década seguinte, outro grande equívoco afetou o movimento espírita. Alfredo Nahas observou de perto uma mudança drástica na forma como o espiritismo era conduzido. Nos anos 80, qualquer tema era enfocado nas discussões espíritas. As universidades, inclusive nos Estados Unidos, estudavam e divulgavam textos apócrifos, e a diversidade de pensamento era celebrada.

“Pureza Doutrinária”

Entretanto, essa pluralidade foi sufocada pela publicação do livro “Pureza Doutrinária” pela nova diretoria da FEB. O livro pregava uma interpretação rígida e exclusiva das obras de Kardec, relegando outros importantes autores e obras ao ostracismo.

O Conselho, do qual Nahas fazia parte, tentou resistir. Ele votou contra essa medida, mas em vão. Livros de autores como Ramatís e até mesmo obras de Chico Xavier, incluindo o famoso “Nosso Lar”, foram retirados das livrarias espíritas.

A doutrina, que deveria ser dos espíritos e para os espíritos, foi prejudicada por uma visão limitadora, privando-a de sua rica diversidade. Aos poucos, com resistência e esforço, algumas obras foram reintegradas, mas o dano estava feito. O movimento espírita, ao tentar proteger-se de influências externas, acabou por castrar a si mesmo.

Esses equívocos demonstram uma luta constante entre a pureza e a expansão da doutrina. No desejo de manter a integridade dos ensinamentos, as lideranças espíritas, muitas vezes, privaram o mundo de conhecer e se beneficiar de suas verdades. E, ironicamente, ao tentar evitar possíveis deturpações, acabaram cometendo o maior dos erros: o da omissão.

Silêncio do esquecimento

A mensagem de Chico resiste até hoje, ainda bem, contudo, é melhor uma obra imperfeita, mas disseminada, do que nenhuma obra. Porque onde há ação, há possibilidade de correção. Onde há estagnação, há apenas o silêncio do esquecimento.

“A Pureza Doutrinária só aceitava aquilo que Kardec tinha dito, o que Kardec não disse não podia ser verdade. Castraram o movimento espírita. Os espíritas querem ser donos da doutrina. A doutrina não é dos espíritas, a doutrina é dos espíritos. Quando a gente comentou com o Chico sobre a possibilidade de os americanos deturparem a obra, Chico, com a simplicidade dele, falou ser melhor uma obra deturpada do que não fazer nada, porque a deturpação a gente corrige, há os livros originais. Agora, não fazer nada é muito pior, é melhor errar do que não fazer nada”, disse Nahas a Flávio Valle.

Por: Juscelino Taketomi