
Um elemento inusitado produzido pelo gado tem chamado a atenção no mercado global por seu preço exorbitante. Os cálculos biliares encontrados na vesícula de bovinos atingiram um valor de mercado que supera o do ouro, impulsionados pela demanda na China, onde são utilizados como insumo medicinal tradicional.
De acordo com dados recentes, essas pedras chegaram a ser negociadas em 2025 por aproximadamente US$ 5.800 a onça — o equivalente a mais de R$ 30 mil. O valor é cerca de duas vezes superior ao do ouro no mesmo período. A procura constante no mercado chinês mantém a trajetória de alta dos preços.
Conhecidas como “Niu Huang” no país asiático, as pedras são ingrediente fundamental em remédios tradicionais chineses, aplicados no tratamento de quadros graves, como acidentes vasculares cerebrais (AVCs), febres intensas e distúrbios de consciência. A alta incidência de doenças cardiovasculares e de AVCs na China tem aquecido a busca por substâncias que possuam propriedades benéficas ao sistema nervoso.
Estudos científicos recentes indicam que componentes presentes nesses cálculos, como certos ácidos biliares e aminoácidos, podem auxiliar na melhora da circulação cerebral, na redução de processos inflamatórios e na proteção celular após um derrame.
Raridade alimenta ilegalidade
Apesar da forte demanda, a oferta do produto é extremamente limitada. A formação dos cálculos é um fenômeno raro, que tende a ocorrer em animais mais velhos. No entanto, a lógica da pecuária moderna prioriza o abate precoce para maximizar a eficiência produtiva, reduzindo as chances de encontrar as pedras. Estima-se que apenas um em cada mil bovinos apresente essa característica.
Essa escassez deu origem a um lucrativo mercado paralelo. Países com grandes rebanhos, como Brasil, Estados Unidos, Austrália e Argentina, têm registrado casos de roubo e contrabando do material. Há relatos de invasões a fazendas e desvios de cargas em frigoríficos.
O potencial econômico do subproduto não passou despercebido por autoridades internacionais. Nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura passou a incentivar os produtores a explorar comercialmente os cálculos biliares, diante da demanda asiática. Dados de importações globais via Hong Kong mostram um crescimento expressivo, com o mercado movimentando cerca de US$ 218 milhões entre 2019 e 2023, tendo Brasil e EUA como principais fornecedores.
Alternativas sintéticas e o mercado humano
Diante da oferta restrita e do alto custo, pesquisadores na China desenvolveram versões sintéticas dos cálculos em laboratório. O objetivo é reproduzir, ainda que parcialmente, os efeitos terapêuticos e diminuir a pressão sobre o produto natural. Apesar disso, as pedras de origem animal continuam sendo consideradas o padrão de referência na medicina tradicional.
Outra vertente curiosa deste mercado é o comércio de cálculos biliares humanos, que também são negociados em plataformas on-line. O valor de uma única pedra pode superar US$ 1.200 (cerca de R$ 6.200), variando conforme o tamanho e a qualidade.
Com preços que desafiam a lógica do mercado de commodities e uma demanda internacional em expansão, os cálculos biliares bovinos se firmam como um item de altíssimo valor agregado, transformando um resíduo do abate em protagonista de um negócio global bilionário e, por vezes, clandestino.


