
Por Juscelino Taketomi
Escrevo este artigo com profunda preocupação e senso de urgência. O alerta feito pelo governador de Roraima, Antônio Denarium, sobre o risco de colapso dos serviços públicos diante de uma possível nova onda migratória de venezuelanos não pode, de forma alguma, ser tratado como retórica política ou alarmismo.
Creio que o alerta é um aviso duro, realista e sustentado por dados, experiência concreta e pela séria situação de crise vivida na fronteira norte do País.
Roraima já opera no limite. No auge da crise migratória, o Estado chegou a receber entre 1.500 e 2.000 venezuelanos por dia. Hoje, mesmo com a redução do fluxo para algo entre 300 e 500 entradas diárias, o cenário permanece instável e frágil.
Basta um novo fator de desestabilização — como a recente escalada da crise entre Venezuela e Estados Unidos — para que o fluxo volte a explodir. E, se isso ocorrer, Roraima simplesmente não terá condições de absorver esse impacto.
Os números são alarmantes. Em 2010, havia menos de 3 mil venezuelanos vivendo no Brasil. Em 2022, já eram mais de 270 mil. Em Roraima, os estrangeiros representam cerca de 13% da população, majoritariamente venezuelanos. É uma proporção brutal para um estado pequeno, com estrutura limitada e historicamente carente de investimentos federais compatíveis com suas responsabilidades.
Denarium avisa que, se as fronteiras não forem fechadas ou rigidamente controladas, o problema será angustiante. Suas palavras não deixam margem para interpretação complacente. Ele fala em invasão, em colapso iminente dos serviços públicos, em incapacidade absoluta do Estado de garantir atendimento mínimo em áreas vitais como saúde, educação, segurança e sistema prisional.
O problema é mais agudo do que se poderia prever, e não se trata de xenofobia ou insensibilidade humanitária. Trata-se de sobrevivência administrativa e social.
A ajuda financeira anunciada pelo Governo Federal — R$ 115 milhões, fruto de um acordo no Supremo Tribunal Federal — está longe de resolver o drama.
O valor, dividido entre saúde, educação, segurança e sistema prisional, cobre apenas parte de gastos já realizados. Não contempla, nem de longe, um novo choque migratório em larga escala. É um alívio momentâneo, não uma solução estrutural.
O drama de Roraima, é preciso dizer com clareza, não ficará restrito às fronteiras do Estado. Boa Vista será a primeira a sentir o impacto, mas Manaus virá logo em seguida. Historicamente, a capital amazonense funciona como destino natural de migrantes que não conseguem permanecer em Roraima.
Se o fluxo voltar a crescer de forma descontrolada, Manaus enfrentará pressão direta sobre sua rede de saúde, seu mercado de trabalho, sua assistência social e sua segurança pública.
Por isso, entendo que o Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus não podem assistir a esse cenário como meros espectadores. É imperativo que atuem desde já, de forma articulada com o governo roraimense, cobrando do Governo Federal medidas preventivas, planejamento realista e recursos compatíveis com a gravidade do problema.
Esperar o caos se instalar para então reagir será um erro histórico.
O fechamento da fronteira, ainda que seja uma medida extrema, não pode ser descartado. O próprio governador de Roraima lembra que, mesmo quando a fronteira esteve oficialmente fechada, venezuelanos continuaram entrando por rotas alternativas.
Isso apenas reforça a necessidade de uma política nacional firme e integrada, que combine controle territorial, ação humanitária responsável e cooperação internacional.
O Brasil sempre foi, e deve continuar sendo, um país solidário. Mas solidariedade não pode significar improviso, omissão ou transferência injusta de responsabilidades para estados que já estão no limite de sua capacidade.
Ignorar o alerta de Roraima é flertar com uma crise humanitária e institucional ainda maior, que atingirá em cheio a Amazônia brasileira e, mais cedo ou mais tarde, todo o País.
Diante desse cenário, é impossível não chamar à responsabilidade a bancada federal do Amazonas. Deputados e senadores amazonenses precisam compreender que esta não é uma crise alheia, restrita a Roraima.
A crise é uma ameaça concreta que baterá às portas de Manaus com força devastadora, caso nada seja feito agora. O Congresso Nacional não pode permanecer inerte enquanto o Norte do País caminha para um colapso previsível.
É fundamental que a bancada do Amazonas se mobilize, atue de forma unificada e pressione o Governo Federal por medidas urgentes, recursos maiores e uma política clara para o controle do fluxo migratório na fronteira norte.
O silêncio, neste momento, será interpretado como omissão. A hora exige articulação política, firmeza e coragem para defender a população amazonense e evitar que a crise humanitária que já sufoca Roraima se transforme em um desastre regional de proporções irreversíveis.


